Òrìṣà Ọbàtálá, Àjàlá Mọ̀pín, Ògún e Orí: A criação do ser humano segundo a tradição Yorùbá — de Ọ̀run a Àiyé

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Na cosmologia yorùbá, a criação do ser humano não deve ser compreendida como uma obra realizada por uma única divindade. O ser humano é resultado da participação de diferentes forças divinas, cada uma desempenhando uma função específica na preparação daquele que deixará Ọ̀run para viver em Ayé.

Segundo determinados ìtàn e versos de Ifá, Ògún participa da formação do ser humano fornecendo o esqueleto, enquanto Ọ̀bàtálá está relacionado à modelagem do corpo. Posteriormente, Olódùmarè concede o sopro vital que transforma a matéria em um ser vivo.

Essa tradição estabelece uma relação profunda entre Ògún e os ossos humanos. Ògún é o Òrìṣà do ferro, da forja, das ferramentas, da força e da transformação da matéria. O osso, por sua vez, constitui a estrutura que sustenta o corpo. Dessa maneira, a associação entre Ògún e o esqueleto não é apenas física, mas também simbólica: a força de Ògún está relacionada àquilo que dá resistência, sustentação e firmeza ao ser

Ọ̀bàtálá, por sua vez, ocupa uma posição fundamental nas narrativas yorùbá de criação. Ele está relacionado à modelagem do corpo humano, dando forma à matéria que constituirá o indivíduo. A criação, entretanto, não termina com o corpo físico, porque o ser humano necessita também de um princípio interior que o individualize e o acompanhe em sua existência.

É nesse momento que surge Àjàlá Mọ̀pín, tradicionalmente associado à elaboração, modelagem e preparação do Orí. Segundo a cosmologia preservada no corpus de Ifá, antes de partir de Ọ̀run para Àiyé, o ser humano passa pelo domínio de Àjàlá, onde seu Orí é preparado e escolhido. É a partir desse Orí que o indivíduo ingressará em Àiyé, levando consigo uma dimensão fundamental de sua identidade, de seu destino e de sua existência no mundo.

O conceito de Orí é muito mais amplo que a cabeça física. O Orí inú, a cabeça interior, representa uma dimensão fundamental da individualidade, da consciência, da orientação espiritual e do destino. Por isso, a condição do Orí possui grande importância para a vida da pessoa em Ayé.

Um conhecido ìtàn de Ifá narra a história de Orísèékú, Orílèémèrè e Afùwàpé, que se preparavam para partir para Ayé e foram orientados a procurar Àjàlá para escolher seus Orí. A narrativa demonstra que a passagem para o mundo terrestre envolve uma preparação anterior no domínio espiritual.

É significativo que Orísèékú seja apresentado nessa tradição como filho de Ògún. Dessa maneira, Ògún também aparece diretamente relacionado à narrativa da passagem entre Ọ̀run e Ayé.

Ògún possui ainda outra função fundamental: a abertura do caminho. Seu instrumento é o ferro, e o ferro permite cortar a mata, abrir estradas, construir ferramentas e transformar o ambiente. Por isso, sua presença na passagem entre Ọ̀run e Ayé pode ser compreendida como a força que torna possível a abertura do caminho para a manifestação da vida.

A tradição yorùbá, portanto, apresenta a criação humana como uma ação conjunta de diferentes poderes. Ògún está relacionado à estrutura óssea e à abertura do caminho; Ọ̀bàtálá à modelagem do corpo; Àjàlá Mọ̀pín à modelagem do Orí; e Olódùmarè ao princípio vital que anima a criatura.

Essa concepção revela uma característica profunda do pensamento yorùbá: o ser humano não começa sua existência simplesmente no momento do nascimento. Antes de chegar a Ayé, existe uma preparação em Ọ̀run, na qual diferentes elementos de sua existência são constituídos.

Princesa de Obatala -Abeokuta,Nigéria

O corpo necessita de forma, o corpo necessita de estrutura, o indivíduo necessita de Orí e a matéria necessita de vida. Cada dimensão está associada a uma força específica dentro da ordem cósmica.

Assim, a tradição Yorùbá pode ser compreendida como uma criação na qual diferentes forças divinas participam da constituição do ser humano: Ògún fornece a estrutura e os elementos que sustentam o corpo; Ọ̀bàtálá molda a forma física; Àjàlá Mọ̀pín trabalha e aperfeiçoa o Orí; Òṣun participa da constituição do sangue e da vitalidade; e Olódùmarè concede o sopro vital que anima a existência. Concluída essa preparação em Ọ̀run, o ser humano parte para Àiyé, trazendo consigo o Orí escolhido e o destino que deverá realizar no mundo.

É uma visão na qual corpo, Orí, força vital, destino e mundo material não estão separados. Todos fazem parte de uma mesma ordem de existência, e o ser humano chega a Ayé carregando consigo aquilo que foi preparado no domínio espiritual.

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