
Òtá, também conhecida como Otta, é uma antiga cidade Awórì Yorùbá localizada no atual Estado de Ogun, na Nigéria. Muito além de sua atual importância urbana e industrial, Òtá ocupa um lugar particular na geografia sagrada Yorùbá e nas tradições orais preservadas pelo corpus de Ifá. Em determinadas tradições, a cidade está intimamente associada às Ìyáàmi Òṣòròngà, às Àjẹ́ e às Eleye — as poderosas Mães cuja presença, autoridade e mistérios atravessam diferentes Odù de Ifá.
Entre essas referências, destaca-se Ìrété Ọ̀wónrín, também conhecido em algumas tradições como Ìrété Olótà, estabelecendo uma associação particular entre o Odù e Òtá. É nesse contexto que a tradição de Ifá preserva o relato da viagem de Òrúnmìlà a Òtá em busca do conhecimento relacionado às Eleye e aos seus mistérios. A narrativa transforma a cidade em muito mais do que um espaço geográfico: ela passa a integrar a geografia sagrada na qual determinados conhecimentos ancestrais são preservados.
Segundo o itan, antes de partir para Òtá, Òrúnmìlà consulta Ifá e recebe a orientação de realizar ẹbọ. Depois de cumprir a prescrição ritual, segue em direção à cidade associada às Eleye. É nesse território que ocorre seu encontro com essas poderosas Mães, em uma narrativa na qual Èṣù desempenha igualmente um papel fundamental.
O episódio não deve ser compreendido apenas como uma disputa entre personagens sobrenaturais. Ele apresenta uma narrativa sobre conhecimento, autoridade, preparação ritual e os limites que envolvem determinados mistérios. Òrúnmìlà procura compreender aquilo que ainda não conhece, mas sua aproximação das Eleye é precedida pela consulta a Ifá e pelo cumprimento do ẹbọ.
É justamente nesse ponto que Òtá adquire uma dimensão que ultrapassa sua geografia física. Dentro dessa tradição, a cidade transforma-se em uma paisagem sagrada associada ao poder ancestral feminino. Òtá é o lugar para onde Òrúnmìlà precisa viajar para aproximar-se do conhecimento das Eleye, estabelecendo uma relação profunda entre território, ancestralidade, poder feminino e conhecimento ritual.
A associação das Ìyáàmi com o corpus de Ifá, entretanto, não se limita a Ìrété Òwánrín. Diferentes tradições relacionam as Ìyáàmi a vários Odù, entre eles Òsá Méjì, Òdí Méjì, Ìrété Méjì, Ògúndá Ògbè e Ìrété Ògbè. Òsá Méjì, em particular, aparece em tradições relacionadas às Eleye, enquanto Ìrété Òwánrín/Ìrété Olótà preserva a narrativa da viagem de Òrúnmìlà a Òtá.
A tradição de Ìrété Méjì acrescenta outra dimensão a essa memória. Nesse Odù, uma narrativa fala da chegada à Terra de numerosas proprietárias de pássaros, tradicionalmente associadas às Eleye. O relato situa Òtá como o lugar de sua chegada inicial, reforçando a associação da cidade com essas poderosas Mães e com a presença das Eleye no mundo.
A compreensão das Ìyáàmi também exige cuidado com as traduções. Reduzir Àjẹ́ ou Eleye simplesmente à palavra portuguesa “bruxa” não contempla a complexidade do pensamento Yorùbá. Nas tradições relacionadas a essas figuras aparecem conceitos associados ao poder materno, à autoridade feminina, à fertilidade, à transformação, à ancestralidade e à manutenção de determinados equilíbrios sociais e cósmicos.
O próprio termo Eleye, associado às “donas dos pássaros”, possui uma dimensão simbólica fundamental. O pássaro aparece em diferentes narrativas como manifestação ou instrumento de poderes que não estão imediatamente acessíveis ao mundo humano. Por isso, a linguagem das Eleye é também uma linguagem de mistério, transformação e poder.
Nesse contexto, a participação de Èṣù na narrativa de Ìrété Ọ̀wónrín é igualmente significativa. Como princípio de comunicação, movimento e mediação, Èṣù aparece no itan como aquele que participa da circulação de informações entre diferentes domínios. Sua presença demonstra que o encontro entre Òrúnmìlà e as Eleye não pode ser separado da dinâmica de Èṣù.
É nesse conjunto de tradições que algumas fontes e linhagens identificam Òtá como Ìlú Àjẹ́, a cidade associada às Àjẹ́, ou como um território relacionado às Eleye. O lugar adquire, assim, uma dimensão de memória ancestral na qual a cidade física e a cidade sagrada coexistem.
É importante, entretanto, distinguir tradição sagrada de comprovação histórica. A afirmação de que Òtá é “a terra das Ìyáàmi Òṣòròngà” pertence ao campo da memória oral, da tradição de Ifá e da geografia sagrada Yorùbá. Isso não significa afirmar que a arqueologia tenha demonstrado que a cidade foi literalmente fundada por seres sobrenaturais. A história de Òtá como comunidade Awórì possui seus próprios processos históricos, enquanto suas associações sagradas foram transmitidas por narrativas, Odù, ẹsẹ̀ Ifá, tradição oral e memória cultural.
Essa distinção não diminui a importância da tradição. Pelo contrário, demonstra como o pensamento Yorùbá preserva diferentes camadas de significado para um mesmo território. Uma cidade pode ser simultaneamente um espaço de habitação humana, um centro econômico contemporâneo e um lugar carregado de memória ancestral.
Hoje, Òtá é também conhecida por sua importância econômica e industrial no Estado de Ogun. A cidade contemporânea cresceu e se transformou, mas suas antigas referências culturais continuam fazendo parte da memória Yorùbá. Entre essas referências está justamente sua associação com as Ìyáàmi e com o universo das Eleye.
A importância de Òtá para o estudo de Ifá está, portanto, na profunda conexão entre território, narrativa e ancestralidade. Em Ìrété Òwánrín/Ìrété Olótà, Òtá não é apenas um nome geográfico: é o cenário de uma narrativa na qual Òrúnmìlà busca conhecimento, Èṣù participa como mediador e as Ìyáàmi aparecem como detentoras de um poder que exige reconhecimento e respeito.
A tradição de Òtá também recorda que a geografia sagrada Yorùbá não é composta apenas por templos ou locais de culto. Ela está presente nos próprios ìtàn, Odù, ẹsẹ̀ Ifá, nomes das cidades, paisagens e memórias transmitidas entre gerações.
Por isso, falar de Òtá como a terra das Ìyáàmi Òṣòròngà é falar de uma importante paisagem da memória espiritual Yorùbá — um território onde, segundo determinadas tradições de Ifá, a presença das Grandes Mães está profundamente inscrita na história sagrada do lugar. Òtá permanece, assim, entre a cidade histórica e a cidade sagrada: um território onde a memória das Ìyáàmi continua sendo preservada pela tradição de Ifá, pelos Odù e pela memória cultural Yorùbá.